Marimbondofobia e marimbondocidas

Para bem da clareza e ante vocábulos novos, ou velhos mas com novos significados, convém aferirmos com um mínimo de rigor o que querem dizer, para que não sejam usados debalde, confundindo o leitor, pelo que se me afigura de capital importância e deveras útil esclarecer e definir, “breve”, “rápido” e de uma vez por todas, o conceito de “marimbondo” bem como todos as palavras derivadas deste semantema (que é como quem diz, da raiz da palavra) como por exemplo a “marimbondofobia”.

Por Brandão de Pinho

Que se saiba o criador deste neologismo foi Sua Excelência o Generalíssimo Caudilho Dr. João Lourenço, que inspirado pelas tágides ou pelas suas ninfas homólogas do rio Douro – não sei precisar – num discurso memorável estarreceu os ouvintes pela acutilância, verbosidade e determinação com que, referindo-se àqueles que não comungassem e engolissem em seco a hóstia da divina missão lourencista de saneamento económico-financeiro do Quadrado Austral – e reporto-me a Angola, tal como a Tuga é um rectângulo, a França um hexágono e a Itália uma bota – para a qual mesmo que não nominalmente eleito em sufrágio, fora entronizado.

Mas, justamente para aferirmos a terminologia e evitarmos equívocos, definamos de “não-alinhados”, ou melhor, de “desalinhados” (para evitar confusões desnecessárias com situações de outros tempos) todos os que mesmo não estando com ele por inferência lourencista e de acordo com as suas convicções bélicas – próprias de quem fez carreira militar – automaticamente estarão contra ele, mesmo não sendo de todo o caso. Ressalvando-se o termo “marimbondo” para a fracção mais aguerrida e possante daqueles últimos, e que, activamente boicotarão, no entender de JLo, o PRECL (Processo de Reformas Em Curso Lourenciano) porque as suas reformas iriam contra os seus interesses.

Para esclarecimento final, e, verdade seja dita que a língua portuguesa está cheia de exemplos em que substantivos animais se transformam noutros substantivos e até adjectivos, sendo o caso mais comum o vocábulo burro, do qual em abono da verdade JLo não tem nada.

Posto isto e estabelecida que está a terminologia já não serão necessárias aspas quando se escrever estes modernismos (nos quais incluo o “Ticelito” e a sua versão eléctrica e aditivada “Ticelitium”) ainda que marimbondo por ventura não seja exactamente um neologismo, na medida em que a palavra em si já existia ainda que, de significado mais limitado e restrita apenas à zoologia.

Lourenço já fez mais do que aquilo que alguém poderia supor e muito mais do que o que alguém vindo da oposição poderia ter feito, e, será um caso de estudo universal – espero que pelo sucesso que venha a ter – nas melhores universidades mundiais pela forma como vem coonestando o seu activo tirocínio; pela coragem e decisão com que arrepiou caminho; pelo impacto da suas reformas num estado mais do que falido apesar de opulento, devido às praticas cleptocráticas emepelianas que escudadas numa oposição indolente e numa comunicação social amordaçada ou comprada, na iliteracia e brandura da população e na complacência das outras nações que preferiram evitar desestabilizações (pouco se importando com os 20 milhões de pobres esfaimados) não fosse o caso da teta petrolífera descontinuar o fluxo de tão precioso liquido.

Tudo isto foi um duro e rude golpe para a materialização do estatuto de grande potência regional (pelo menos potencialmente) que é Angola como profetizou o académico e investigador angolano-português e fugaz cronista do Folha 8, Eugénio Costa Almeida (se bem que pusesse a RDC num nível superior ao de Angola, o que não poderemos aceitar, obviamente).

E justamente por tudo isto, chegamos a este estado de indigência absoluta, obrigando JLo a mendigar empréstimos e a enredar-se – como se estivesse preso numa teia de aranha – em incontáveis ardis para ir procrastinando o pagamento dos calotes mesmo que os venha assumindo, menos por ser um homem de bem mas mais para que as Instituições confiem nele e essa é a verdade nua e crua tal como escreveu William Tonet no Folha 8.

Seria bom que Angola fosse um pouco como a Noruega, que avisada e sabiamente não se deixou contaminar pela maldição do petróleo e constituiu um verdadeiro Fundo Soberano Petrolífero, e, nesse caso evitar-se-iam as humilhantes tentativas, às vezes quixotescas, de diversificar uma economia que a exemplo de outras no mundo, como é o caso da Venezuela, foi imprecada pelo Ouro Negro que jorra abundantemente do âmago das terra de Angola e Cabinda, ou as tentativas, de atrair verdadeiros investidores estrangeiros, pequenos ou grandes mas desta vez qualificados e com a verdadeira e genuína motivação de acrescer “know how” a Angola e gerar riqueza, mas desta vez sem esquemas, sem gasosas e sem a submissão à cartilha do MPLA e às suas praticas mafiosas que conspurcaram o funcionamento eficaz de uma verdadeira economia de mercado onde as regras são iguais para todos e onde quem trabalhar mais e melhor verá o seu esforço recompensado e servirá de contagiante exemplo aos demais. Vamos ver se é desta vez…

Angola para todos os efeitos continua a ter uma mentalidade tacanha de colónia – mesmo que obrigue o antigo colonizador a pôr-se de cócoras ante si julgando-se assim e por isso apenas um país soberano – por falta de arte e engenho do MPLA, que foi claramente manietado pelas potências mundiais transformando-se numa petro-nação cuja cúpula dirigente e demais sipaios – que colhem as migalhas que sobejam dos banquetes emepelianos – muito ingenuamente, apesar de meterem avultadas quantias ao bolso, não passam de marionetas dos portugueses, soviéticos, americanos ou chineses ou de quem quer que querendo aproveitar-se das riquezas do país e da ganância e desonestidade de quem manda, oferece uns espelhos e umas contas de vidro e vê as portas escancaradas para a pilhagem das imensas riquezas naturais pertenças dos angolanos.

Bem… mas desde há muito que disto se fala e disto toda a gente tem conhecimento. Tudo isto, de facto, existe, tudo isto é triste e tudo isto é o fado a que querem condenar Angola, mas tenho esperança que JLo recorra dessa condenação nos competentes areópagos – e ainda que com métodos pouco ortodoxos e mesmo descurando as práticas democráticas ocidentais (há dias li num jornal angolano um alto dirigente a excluir-se desse espaço geográfico mental que é o Ocidente) mais elaboradas – e consiga ser o agente de mudança para desafricanizar definitivamente a pátria.

A semana passada deu muito que falar, quer pela imberbe e insólita entrevista de Lourenço à RTP, quer pela visita de Marcelo a Angola onde muito se disse e ao que parece muita coisa foi assinada entre os dois países sendo inevitável a comparação entre um e outro.

Amigo leitor, nunca se poderá fazer uma análise séria destas duas elevadas e insignes figuras sem se ter em conta os respectivos regimes pois tendo Portugal um regime sem-presidencialista, Ticelito pouco mais poder tem que a Rainha de Inglaterra pelo que – sem funções e obrigações governativas ou problemas sérios para resolver – pode dar azo a toda a folia que a sua provecta idade, aparentemente ainda admite, e é curioso como uma mente sem problemas que a ocupe pode dar azo a afectuosas pantominices com que jornalistas e populaça se deliciam, seja em Portugal ou em Angola, o que por um determinado prisma não deixa de ser constrangedor e confrangedor, quase a roçar a má-educação na medida em que o brilho é tal que ofusca tudo à sua volta incluindo o nosso mais alto dignitário e anfitrião, que cheio de chatices para resolver – tal como o cargo que ocupa determina – pouca energia lhe sobeja para iniciativas estéreis e supérfluas.

Marcelo dançou, bebeu, deixou-se fotografar, lançou foguetes, festejou, apanhou as canas, empoleirou-se nos carros, fugiu aos seguranças, quebrou protocolos, beijou e foi beijocado, deu passou-bens, e de voz rouca, quase afónico, parte do seu tempo foi dedicado à análise dos vários gradientes de efusividade própria e popular com que era recebido e aclamado e outra parte foi dedicada a dar valentes pontapés na gramática sendo recorrente o uso incorrecto de adjectivos quando a frase pedia um advérbio e rara foi a ocasião em que não tinha que fazer qualquer coisa “rápido” ou dizer “breve” outra coisa qualquer. A querer usar adjectivos que o fizesse de forma rápida e os dissesse em breve.

Marcelo é uma “pop star” e sofre de um defeito – que não fora a sua função meramente cerimonial, poderia causar sérios transtornos à boa governação de um país – que tem tudo para dar mal e quando der, será algo de irreversível e num crescendo alucinante capaz de fazer colapsar a sua própria figura. Ou seja, o “neomarcelismo” há-de destruir Marcelo e há-de destruir qualquer menos precavido presidente que o venha a suceder nas próximas décadas, e, talvez a reeleição não seja como que favas contadas pois o “neomarcelismo” é uma corrente que vai consumindo recursos numa proporção geométrica e vai eucaliptizando tudo em volta, mesmo as ervas daninhas se é que não incorre em autofagia.

Verdadeiramente Marcelo nem se poderia recandidatar pois disse claramente no rescaldo de uma grande tragicomédia que “…enquanto os Grandes Incêndios de Pedrogão Grande não fossem esclarecidos não se recandidataria…” e se há tema confuso e com muito para explicar é este.

Vamos ver se o distinto colaborador do Folha 8, Dr. Paulo Morais, que é a única alternativa viável a Marcelo consegue reunir apoios para uma verdadeira candidatura independente com sérias hipóteses de concorrer com o Comentador/Professor. Pena é que os jornais e demais órgãos de comunicação social incluindo as redes sociais lusitanos padeçam de uma cegueira e favoritismo tão descarados que a eventual cobertura eleitoral será mais injusta e parcial do que a dos congéneres angolanos ao longo destas últimas 4 décadas.

Marcelo faz-me lembrar o vetusto clínico geral da pequena cidade onde decorre o filme “Aracnofobia”, condição psicológica que mais não é do que uma espécie de marimbondofobia em que o pavor irracional a marimbondos é substituído pelo medo a aranhas e tarântulas, na medida em que esse clínico em vez de avaliar o exercício das suas funções pela qualidade médica com que as desempenhava, fá-lo pela quantidade de apertos de mão e cumprimentos que recebe na saloia cidade pelos seus labregos habitantes.

No filme, a dada altura, o médico deveria estar reformado e substituído pelo recém-chegado colega e protagonista que se exasperava com a incompetência com que o seu antecessor tratava e medicava os doentes e que, lembro-me perfeitamente, num caso de tratamento da hipertensão arterial usava protocolos desactualizados e remédios obsoletos sem analisar racional e cientificamente a pressão sistólica, diastólica e a frequência cardíaca, nem tampouco o exercício físico e a mudança de hábitos alimentares e de outra natureza.

Deveria estar reformado de facto, mas a vaidade e a previsível perda de popularidade fê-lo declinar nem mesmo quando a sua mulher no leito conjugal lhe pergunta, seriamente, se ele ainda continua a achar se a vida não passa apenas de um mero e gigantesco concurso de popularidade.

Foi por isso que Ticelito também se transformou num … marimbondofobo não fosse esse o processo de atingir a tão almejada popularidade mais “rápido” e mais “breve” possível. Por isso, em meu nome e através do Folha 8 e em seu nome também, deixamos esta pergunta ao Professor Marcelo:

Continua V. Ex.ª a achar que isto da política e esta coisa de governar um país não passa de um imenso concurso de afectuosidade e popularidade expresso na efusividade com que se dá um “like”, tira uma “selfie” ou se beija e abraça os populares?

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